16 Infoluição
Versão 0.1.1 - 21/12/2025
Apesar de soar limpa, etérea e imaterial, a “datasfera” está longe do ideal ecumênico de unir povos e proteger o ambiente, ou de existir numa espécie de “nuvem”148 separada da realidade concreta.
Como diz Monserrate (2022), “nuvens” não são imateriais:
Cloud of the digital is elusive, its inner workings largely mysterious to the wider public […] But just as the clouds above us, however formless or ethereal they may appear to be, are in fact made of matter – water molecules in various states of condensation and crystallization – the Cloud of the digital is also relentlessly material.
To get at the matter of the Cloud we must unravel the coils of coaxial cables, fiber optic tubes, cellular towers, air conditioners, power distribution units, transformers, water pipes, computer servers, and more. We must attend to its material flows of electricity, water, air, heat, metals, minerals, and rare earth elements that undergird our digital lives. In this way, the Cloud is not only material, but is also an ecological force. As it continues to expand, its environmental impact increases, even as the engineers, technicians, and executives behind its infrastructures strive to balance profitability with sustainability.
Figure 16.1: O conceito de Datasfera é mais abrangente que o de Internet, que é mais abrangente que o de “Nuvem”. Enquanto “nuvens” são conjuntos de computadores – em geral nos núcleos –, a Internet é um conceito vago que se refere a uma quantidade enorme de computadores ao redor – e também em órtita – do planeta interconectados entre si de diversas maneiras formando uma rede de dados. Já a Datasfera abarca qualquer aparelho que produza ou consuma dados, estando ou não interconectado com outro aparelho. Há uma tendência por interconexão que fazendo com que a Internet tenda a englobar a Datasfera. E a esta última, estaria de dentro de outra esfera? Talvez não a “Noosfera” dos pensamentos, mas dentro de uma “Formasfera” composta de processos coloniais que impõe formas no mundo?
A “Datasfera”, a “Internet” e a “Nuvem” são parte de uma lixosfera que inclui não somente a atmosfera poluída, aterros e esgotos, como também o ainda tênue anel de lixo espacial já orbitando a Terra.
A começar pelo seu tamanho: a bolha informacional humana é de cerca de 200 anos-luz de emissões eletromagnéticas para tudo quanto é lado, desde que as ondas de rádio tiveram potência e frequência aptas para ir além da ionosfera terrestre.
No espectro eletromagnético, é a Terra que figura como estrela do sistema solar dentro da faixa das ondas transmitidas pela atividade humana. A amplitude dos efeitos humanos é muito maior que os limites sistema solar. Nessa escala interplanetária, porém, o Hiperluminismo humano não passa de uma trêmula lamparina, um pálido ponto irradiante.
São nas tenras órbitas terrestres que a poluição informacional tem maior concentração e efeito.
Nos séculos XIX e XX da era corrente houve a ascensão de várias poluições básicas, afetando a composição do ar, os rios, mares etc. Todas podem ser de certa maneira entendidas como poluições informacionais, pois alteram (ou adulteram) a forma dos meios comuns. Quando o meio também se torna a mensagem149, o meio se torna poluído. As poluições visual e sonora talvez tenham sido as primeiras identificadas como de característica informacional.
Informação, assim como plásticos e demais poluentes, deveria ser tratada com cuidado. O manuseio especial não deveria se restringir apenas a materiais radiativos. A informação produz plumas de poluição tão difíceis de lidar quanto plutônio.
Consideremos a poluição informacional planetária em algumas das suas componentes:
A poluição pelo consumo energético150: examinar o que acontece nos centros de dados nos dá uma indicação muito direta do custo ambiental de tanta informação, e sua relação com a crise climática. Haja vista seu consumo de energia na escala dos TWh (Tera Watts hora151) anuais152:
[…] the Cloud now has a greater carbon footprint than the airline industry. A single data center can consume the equivalent electricity of fifty thousand homes. At 200 terawatt hours (TWh) annually, data centers collectively devour more energy than some nation-states. Today, the electricity utilized by data centers accounts for 0.3 percent of overall carbon emissions, and if we extend our accounting to include networked devices like laptops, smartphones, and tablets, the total shifts to 2 percent of global carbon emissions.
Grande parte deste consumo de energia é usado para dissipar o calor, gerado pela própria computação como um subproduto indesejado153:
The flotsam and jetsam of our digital queries and transactions, the flurry of electrons flitting about, warm the medium of air. Heat is the waste product of computation, and if left unchecked, it becomes a foil to the workings of digital civilization. Heat must therefore be relentlessly abated to keep the engine of the digital thrumming in a constant state, twentyfour hours a day, every day.
To quell this thermodynamic threat, data centers overwhelmingly rely on air conditioning, a mechanical process that refrigerates the gaseous medium of air, so that it can displace or lift perilous heat away from computers. […] In North America, most data centers draw power from “dirty” electricity grids, especially in Virginia’s “data center alley,” the site of 70 percent of the world’s internet traffic in 2019. To cool, the Cloud burns carbon, what Jeffrey Moro calls an “elemental irony.” In most data centers today, cooling accounts for greater than 40 percent of electricity usage.
Um dos efeitos da computação – e portanto da informação – é o calor! Desde nossa etimologia popular para a palavra forma, até o dispêndio energético dos centros de dados, o calor figura como um elemento tanto alegórico quanto operacional.
Descontando esse gasto com arrefecimento, outra parcela significativa da energia é empregada em redundâncias e contingências para manter a integridade e a disponibilidade dos centros de dados154:
Why so much energy? Beyond cooling, the energy requirements of data centers are vast. To meet the pledge to customers that their data and cloud services will be available anytime, anywhere, data centers are designed to be hyper-redundant: if one system fails, another is ready to take its place at a moment’s notice, to prevent a disruption in user experiences. […] the data center is a Russian doll of redundancies: redundant power systems like diesel generators, redundant servers ready to take over computational processes should others become unexpectedly unavailable, and so forth. In some cases, only 6-12 percent of energy consumed is devoted to active computational processes. The remainder is allocated to cooling and maintaining chains upon chains of redundant fail-safes to prevent costly downtime.
É somente o restante da energia que é utilizado para as atividades-fim dos centros de dados. Destas, a “mineração” das tais “criptomoedas” assim como o chamado “aprendizado” de máquina (machine learning)155 das “Inteligências Artificiais” são especialmente dispendiosas156:
[…] there are two computational processes performed by servers that are particularly energyintensive and are of increasing concern […] 1) machine learning and 2) cryptocurrency mining. In a study conducted at the University of Massachusetts, Amherst, PhD candidate Emma Strubbel determined that training a handful of artificial intelligence models can emit over 626,000 pounds of carbon dioxide, as much as five American automobiles do over their lifespans. In this way, computation is metabolic: to maximize returns on computational processes, energy inputs must match intensity in the same way that tons of cooling (BTUs) must be matched to electricity curves (kWh) to prevent thermal runaway.
Não são apenas os data centers que consomem energia. A produção e o uso de todos os equipamentos de toda datasfera requer bastante eletricidade. O gráfico da Figura 16.2 mostra três cenários tendenciais (melhor, esperado, pior) até 2030 para o consumo de energia por Tecnologias de Comunicação estimados por Andrae e Edler (2015)157, que ainda destacam:
The most significant trend, regardless of scenario, is that the proportion of use-stage electricity by consumer devices will decrease and will be transferred to the networks and data centers. […] The analysis shows that for the worst-case scenario, CT could use as much as 51% of global electricity in 2030. This will happen if not enough improvement in electricity efficiency of wireless access networks and fixed access networks/data centers is possible. However, until 2030, globally-generated renewable electricity is likely to exceed the electricity demand of all networks and data centers. Nevertheless, the present investigation suggests, for the worstcase scenario, that CT electricity usage could contribute up to 23% of the globally released greenhouse gas emissions in 2030.
Figure 16.2: Consumo anual de energia em TWh por Tecnologias de Comunicação, estimado por Andrae e Edler (2015).
A exaustão dos recursos hídricos: a “nuvem” também é sedenta158:
The Cloud may be a carbonivore, but [..] is also quite thirsty. […] In Bluffdale, Utah, residents are suffering from water shortages and power outages, as a result of the nearby Utah Data Center, a facility of the US National Security Agency (NSA) that guzzles seven million gallons of water daily to operate.
O consumo de água ocorre em ritmo absurdo, e para um dos sistemas de “IA” geradores de texto conhecido como “ChatGPT” ele foi estimado em meio litro por interação159:
ChatGPT needs about 500ml water for a simple conversation of 20-50 questions and answers. Since the chatbot has more than 100 million active users, each of whom engages in multiple conversations, ChatGPT’s water consumption is staggering. And it’s not only the application’s operational mode: Training GPT-3 in Microsoft’s state-of-the-art U.S. data centers would directly consume 700,000 liters of clean freshwater
Só considerando a demanda prevista para o uso de água por “Inteligências Artificiais” já nos dá um indicativo da gravidade da situação160:
training GPT-3 in Microsoft’s state-of-the-art U.S. data centers can directly evaporate 700,000 liters of clean freshwater, but such information has been kept a secret. More critically, the global AI demand may be accountable for 4.2 – 6.6 billion cubic meters of water withdrawal in 2027, which is more than the total annual water withdrawal of 4 – 6 Denmark or half of the United Kingdom.
Os aterros informáticos tóxicos161:
Since the year 2007, when the first smartphone debuted on the marketplace, over 7 billion devices of the sort have since been manufactured. Their lifespans average less than two years, a consequence of designed obsolescence and a thirst to profit from flashy new features and capabilities. Meanwhile, the material and political conditions of their manufacture, and the resources required for their production, remain obscured. Under grueling conditions, miners tirelessly plumb the earth for the rare metals required to make information and communications technology (ICT) devices. Then, in vast factories like Foxconn located in the Global South, where labor can be procured cheaply and legal protections for workers are scant, smartphones are assembled and shipped out to consumers, only to be discarded in a matter of months, to end up in e-waste graveyards like those of Agbogbloshie, Ghana. These metals, many of which are toxic and contain radioactive elements, take millennia to decay.
Historian Nathan Ensmenger writes that a single desktop computer requires 240 kilograms of fossil fuels, 22 kilograms of chemicals, and 1,500 kilograms of water to manufacture. The servers that fill the halls of data centers are dense, specialized assets, with some units valued in the tens of thousands of US dollars.
A poluição sonora dos centros de dados, para não mencionar o ruído constante de outros aparatos que desafiam as regulações existentes162:
[…] the “noise” of the Cloud uniquely eludes regulatory schemes. In many cases, the loudness of the data centers, as measured in decibels (dB), falls below the threshold of intolerance as prescribed by local ordinances. For this reason, when residents contacted the authorities to intervene, to attenuate or quiet their noise, no action was taken, because the data centers had not technically violated the law, and their properties were zoned for industrial purposes. However, upon closer interrogation of the sound, some residents reported that the monotonal drone, a frequency hovering within the range of human speech, is particularly disturbing, given the attuned sensitivity of human ears to discern such frequencies above others. Even so, there were days when the data centers, running diesel generators, vastly exceeded permissible decibel-thresholds for noise.
O desgaste humano: a exploração do trabalho humano precarizado nos centros de dados, intenso e extenuante, semelhante ao de cuidador de humanos, tendo que garantir o tempo de disponibilidade (uptime) dos dados163; assim como o aumento da exploração do trabalho humano atarefado tal como explanado por Falleiros (2024a).
As energias eólicas, de tração animal etc nos aceleraram. A energia elétrica nos acelera. A informação ainda mais. Agir cada vez mas rápido para dar conta de uma taxa de transmissão e recepção de informação crescente, numa avalanche sem fim. Mais informação, mais trabalho.
A poluição da própria datasfera, não somente pelo excesso de mensagens, notícias e dados já mencionado: a dinâmica dos sistemas informacionais está tendendo à proliferação de conteúdo apócrifo e falso. Em pouco tempo será possível dispor de vastas bibliotecas de livros gerados por “IAs”, para não dizer de artigos “científicos” impostores e “vazamentos” (leaks) tratando de episódios nunca acontecidos e dados forjados, dificultando a distinção entre falsos e legítimos denunciadores (whistleblowers) e comprometendo ainda mais a aferição de quais eventos, obras literárias clássicas etc foram ou não produzidas por sistemas infoluidores.
A poluição mental da vasta massa informacional infestando nossas cabeças e que paradoxalmente promove o esquecimento. Se tudo tem valor, nada tem valor. Da mesma maneira, se todo momento é considerado digno de registro, menor valor será atribuído à nossa própria memória, treinada para a amnésia recorrente e à desatenção, porém estimulada a sempre receber mais e mais conteúdo, incentivada à pílulas de novidade contra uma espécie de tédio automático e padrão. Trata-se de um tipo de lixo estranhamente viciante, disponível em quantidades abismais e que permite a qualquer pessoa submergir num “porre” infomaníaco por dados, músicas, filmes, imagens e textos.
Tanta informação anestésica ofusca aquela que realmente interessa, como dados e análises sobre desigualdade social, a má distribuição de renda, o racismo e o machismo estruturais, assassinatos pela polícia, gentrificação, encarceramento em massa, violência sexual, quantidade de guerras, crises ambientais etc. Os debates importantes tornam-se extremamente chatos perto de outros conteúdos mais sedutores que facilmente ganham a disputa por uma atenção cada vez mais fracionada e racionada.
Mesmo quando as pautas importantes chegam, vêm como excesso de notícias ruins sobre problemas que nos deprimem por estarem muito além das nossas capacidades de resolução.
Metralhadas por notícias sobre violência urbana, muitas pessoas ficam em casa com medo de sair desnecessariamente, e acabam vendo mais notícias: o susto do que assistem as assustam viciosamente e as engancham em pautas de extrema direita como a da tolerância zero e do extermínio da gente marginalizada.
A informação é uma componente poluidora até do espectro eletromagnético: toda essa tranqueira datasférica emite radiações eletromagnéticas164 durante seu funcionamento, em maior ou menor grau, e cujo impacto na saúde dos seres vivos tem sido largamente subestimado165:
The most notable is the blanket of radiofrequency electromagnetic radiation, largely microwave radiation generated for wireless communication and surveillance technologies, as mounting scientific evidence suggests that prolonged exposure to radiofrequency electromagnetic radiation has serious biological and health effects. However, public exposure regulations in most countries continue to be based on the guidelines of the International Commission on Non-Ionizing Radiation Protection and Institute of Electrical and Electronics Engineers, which were established in the 1990s on the belief that only acute thermal effects are hazardous. Prevention of tissue heating by radiofrequency electromagnetic radiation is now proven to be ineffective in preventing biochemical and physiological interference. For example, acute non-thermal exposure has been shown to alter human brain metabolism by NIH scientists, electrical activity in the brain, and systemic immune responses. Chronic exposure has been associated with increased oxidative stress and DNA damage and cancer risk. Laboratory studies […] confirm these biological and health effects in vivo. As we address the threats to human health from the changing environmental conditions due to human activity, the increasing exposure to artificial electromagnetic radiation needs to be included in this discussion.
Due to the exponential increase in the use of wireless personal communication devices (eg, mobile or cordless phones and WiFi or Bluetooth-enabled devices) and the infrastructure facilitating them, levels of exposure to radiofrequency electromagnetic radiation around the 1 GHz frequency band, which is mostly used for modern wireless communications, have increased from extremely low natural levels by about \(10^{18}\) times […] It is plausibly the most rapidly increasing anthropogenic environmental exposure since the mid 20th century, and levels will surge considerably again, as technologies like the Internet of Things and 5G add millions more radiofrequency transmitters around us.
Unprecedented human exposure to radiofrequency electromagnetic radiation from conception until death has been occurring in the past two decades. Evidence of its effects on the CNS166, including altered neurodevelopment and increased risk of some neurodegenerative diseases, is a major concern considering the steady increase in their incidence […] and experimental evidence, such as the Yale finding, shows that prenatal exposure could cause structural and functional changes in the brain associated with ADHD-like behaviour167.
[…] This weight of scientific evidence refutes the prominent claim that the deployment of wireless technologies poses no health risks at the currently permitted non-thermal radiofrequency exposure levels. […]
Evidence also exists of the effects of radiofrequency electromagnetic radiation on flora and fauna. For example, the reported global reduction in bees and other insects is plausibly linked to the increased radiofrequency electromagnetic radiation in the environment. Honeybees are among the species that use magnetoreception, which is sensitive to anthropogenic electromagnetic fields, for navigation.
[…] It has been widely claimed that radiofrequency electromagnetic radiation, being nonionising radiation, does not possess enough photon energy to cause DNA damage. This has now been proven wrong experimentally. Radiofrequency electromagnetic radiation causes DNA damage apparently through oxidative stress, similar to near-UV radiation, which was also long thought to be harmless.
At a time when environmental health scientists tackle serious global issues such as climate change and chemical toxicants in public health, there is an urgent need to address so-called electrosmog.
A poluição do céu e do espaço orbital: o excesso de satélites e os debris de foguetes usados para lançá-los compõem um novo tipo de depósito de lixo que não é aterro, mas o desterro das órbitas terrestres. A quantidade desses objetos – em operação ou não – tende a aumentar, e mesmo os satélites em funcionamento são prejudiciais168.
A Figura 16.3 mostra a quantidade de objetos como satélites, sondas espaciais etc lançados ao espaço – totais anuais e cumulativo – compilada pelo Escritório das Nações Unidas para Assuntos Espaciais169. Até 2023, foi registrado um total de 17.263 lançamentos, com um aumento significativo a partir da década de 2010, subindo ainda mais na década de 2020.
Já a Agência Espacial Européia (ESA) aponta que até 06/12/2023 foram lançados 16.990 satélites, sendo 11.500 deles ainda em órbita, porém com apenas 9.000 ainda em funcionamento; a Agência rastreia regularmente 35.150 objetos, mas considera que existam ao redor de 131 milhõs deles em órbita e maiores que 1mm; o número de colisões, quebras e explosões seria da ordem de 640170.
Estimativas agourítmicas171 chegam a indicar que entre 2021 e 2031 ocorram 24.500 lançamentos de satélites, numa média de 2.500 por ano172, sendo dois terços deles de cinco megaconstelações como a Starlink (vulgo Starlixo?) e a OneWeb.
O limite teorizado para esse tipo de poluição é a chamada Síndrome de Kessler, quando o excesso de bugigangas orbitando o planeta chega a um ponto crítico de colisões ocasionando uma reação em cadeia multiplicando a quantidade de fragmentos. Em cenários extremos, isso poderia inviabilizar o envio de mais satélites ou até mesmo viagens espaciais por vários séculos173.
Esse excesso de objetos, sinais e também de iluminação prejudicam não só a astronomia como o acesso ao céu noturno, ao vislumbre dos planetas, estrelas, galáxias, cometas…
A explosão informacional paraxodalmente promove uma clausura e fechamento das pessoas para a informação que chega de fora do planeta, ou mesmo que vem de fora da própria datasfera: nem o céu mais tende a ser visível174 com tanta poluição espectral, enquanto os sistemas nervosos estão cada vez mais inchados e fechados para si num tipo de isolamento que tem sido chamado de “bolha informacional”. A Informação está eclipsando até os céus.
Imaginemos um futuro distópico e talvez não tão distante onde não haja mais estrelas visíveis no céu, a tal ponto de que até surjam campanhas de desinformação afirmando que elas não existem, nem nunca existiram, e de que nada há para além do céu. Só os muito ricos – com o poder de viajar muito longe para os “oásis de céu escuro”175 ou para o espaço exterior – é que ainda conseguirão vislumbrar as estrelas, se é que estarão interessados nisso, possivelmente também isolados em suas próprias bolhas de enclausuramento cognitivo.
Todos esses commons (recursos comuns) e também a saúde dos seres tem sido degradados pelas externalidades da atividade econômica176 das grandes corporações da datasfera, que são pouco cobradas e respondem timidamente para mitigar ou combater a poluição resultante de suas operações comerciais.
Quando muito, adotam o contraditório arcabouço do “desenvolvimento sustentável”, sugerindo que um crescimento infinito seja possível sem impactos ambientais. Mas confiar numa auto-regulação das corporações, e especialmente daquelas conhecidas como “Big Tech”, é arriscado177:
Media scholar Mél Hogan warns against entrusting “Big Tech” with its own regulation, given the companies’ financial ties to the fossil fuel industry and failure to meet the deadlines of previous pledges to reduce carbon emissions or other kinds of waste. Per the 2021 Emissions Gap Report authored by the United Nations Environment Programme, global temperatures are projected to rise by \(2.7^{\circ}C\) by the end of the century. Planetary heating will melt glaciers and raise sea levels. The result will be the salinization of freshwater supplies, proliferation of pathogen growth in stagnant water reservoirs, and the intensification of ongoing processes of desertification, creating near-ubiquitous conditions of water scarcity by 2040 if governments and companies fail to intensify their efforts to curb emissions. While corporate pledges offer no guarantee that data centers will regulate, larger mechanisms of accountability like the recent Climate Neutral Data Centre Pact, a consortium of European data center companies and infrastructure providers promising to become “climate neutral” by 2050, provide a model for larger-scale regulatory initiatives that could make a more substantial impact.
O discursos da sustentabilidade e da eficiência são até apropriados para as corporações, pois se beneficiam duplamente: nas relações públicas, ao venderem a imagem de empresas comprometidas com o ambiente; e no próprio bolso, pois os ganhos em eficiência correspondem diretamente em ganhos econômicos. Os padrões, promessas e acordos de redução da poluição também tem um efeito monopolizador: poucas serão as empresas capazes de investir na obtenção dos patamares de eficiência estipulados por elas mesmas, dificultando a entrada de outros atores – inclusive centros de dados comunitários operados por pequenas organizações, caso não tenham acesso a fontes de energia e de refrigeração de menor impacto.
É preciso tomar cuidado com a ardilosa promessa da regulação e da “sustentabilidade” que mascaram uma expansão desenfreada por mais recursos energéticos alimentando uma datasfera em inflação: dentro do paradigma da hiperformatização, os ganhos ambientais pelo melhor aproveitamento energético tendem a ser relativos e de curta duração, já que os incrementos em eficiência não tem sido revertidos em redução de consumo, mas sim na sua intensificação: mais capacidade de processamento tem sido aproveitada para computar algoritmos mais e mais custosos. Os softwares de hoje possuem muito mais código do que os de ontem: são mais “pesados”. Cada vez mais dados são coletados e processados. Cada vez mais pessoas passam mais tempo ultraconectadas.
Apesar de ser crucial reduzir ao máximo a extração de energia de fontes petrolíferas, é uma ilusão considerar que uma migração para fontes livres ou neutras em carbono será suficiente para mitigar as crises climáticas e energéticas. As outras fontes de energia tem seus próprios problemas e impactos ambientais. É importantíssimo reconsiderar o que tem sido feito com tanta energia.
Por exemplo, antes de se pensar em “Inteligência Artificial” “sustentável” – seja em carbono, água ou qualquer recurso – é preciso perguntar primeiramente para quê “Inteligência Artificial” ou qualquer outro sistema estatístico/computacional. A importante questão da sustentabilidade pode ser usada como subterfúgio retórico para justificar o uso acrítico de uma tecnologia. Um “automóvel” só será sustentável não somente se for sustentável da sua fabricação, do seu uso até o seu descarte, como também pela consideração de quais circunstâncias seu uso é justificável em detrimento de tecnologias de transporte coletivo, ou mesmo do uso de bicicletas. Não há tecnologia sustentável se o seu uso é baseado no desperdício e na falta de necessidade. O risco é o discurso de “sustentabilidade” redundar em promessas vazias que a indústria a indústria fará para a sociedade se sentir com a consciência limpa, permitindo que todos possam esquecer hoje a questão que baterá à porta amanhã.
Figure 16.3: Lançamentos anuais e cumulativo de objetos ao espaço, segundo o United Nations Office for Outer Space Affairs (2024).
Tais discursos de sustentabilidade pendem facilmente para a falácia e para a perversidade. A própria tecnologia ofensiva ao ambiente é justificada pelo eventual benefício que ela poderia trazer. Isso tem sido argumentado para o uso de “machine learning” no avanço da agenda ambiental178:
Ironically, advances in machine learning have led to sustainability innovations in a number of industries and have advanced research to support environmentalist agendas.
Mas é preciso tomar cuidado para que este uso não se torne legitimizador e irrefreável de tecnologias como “Inteligências Artificiais”, que estão mais próximas de agendas coloniais do que emancipatórias, algo que ironicamente pode comprometer a agenda ambiental.
Figure 16.4: Mapa mundial da iluminação noturna, de Falchi et al. (2016). A coloração mostra o quanto a iluminação local está acima do que seria se não houvesse contaminação lumínica. Também é um indicativo de concentrações populacionais e informacionais. Distribuída sob licença Creative Commons Attribution NonCommercial 4.0 (CC BY-NC).
Em seu livro “Poluição é Colonialismo”, Max Liboiron contrapõe179 uma concepção colonial da poluição enquanto incapacidade de um ambiente de se “auto-purificar”, reduzindo a quantidade de descartes nocivos, com a noção de que a poluição é a atuação de relações coloniais com Territórios:
pollution is not a manifestation or side effect of colonialism but is rather an enactment of ongoing colonial relations to Land
Essa noção de Terra (Land), ou Território, é ampla, não se restringindo somente à uma categoria fundiária, indo além de meios considerados materiais, ou seja, poderia até mesmo abarcar outros locais e corpos180:
Land extends beyond a material fixed space. Land is a spiritually infused place grounded in interconnected and interdependent relationships, cultural positioning, and is highly contextualized […] when I capitalize Land I am referring to the unique entity that is the combined living spirit of plants, animals, air, water, humans, histories, and events recognized by many Indigenous communities. When land is not capitalized, I am referring to the concept from a colonial worldview whereby landscapes are common, universal, and everywhere, even with great variation.
Numa noção colonial, é considerada poluição somente aquilo que é despejado num Território mas que não é “processado”: o Território é modelado como uma coisa que tem uma capacidade de carga, descarga ou de assimilação181. O Território já é considerado logo de cara uma espécie de “prestador de serviços” ambientais capaz de lidar com os rejeitos industriais, ou seja, estaria disponível e seria utilizável para esse propósito.
Mas a poluição, como discutimos até agora e ainda trataremos adiante, não é somente um efeito colateral e uma externalidade de processos informacionais, como é parte necessária do processo de colonização Territorial, incluindo, por exemplo, os Territórios mentais.
Adotarei aqui um entendimento provisional de colonialismo a partir da informação, enquanto uma imposição de formas em corpos e territórios. Decorre daí que informar autoritariamente significa impingir um molde ou até forçar modos de comportamento. Essa imposição é de aspecto poluente ao disseminar formas de relação nocivas, alienantes, racializantes, exploratórias e até genocidas182.
O sistemas coloniais implantam recortes territoriais, raciais, de gênero, classe e outros como parte necessária da mecânica agourítmica183 do extracionismo quantificado em termos materiais, energéticos, informacionais, simbólicos, capitais etc. Tais sistemas não somente precisam descartar toda a poluição gerada por esse processo em algum lugar como tiram vantagem de poluir os territórios e sujeitos colonizados, pois assim estes tem mais dificuldade de resistir e se insurgir. A poluição é parte dos mecanismos de opressão.
A poluição gerada pelo sistemas coloniais chega até a ser articulada pelos mesmos como um problema que eles não teriam gerado mas que poderiam resolver, bastando para isso aceitar novas soluções supostamente miraculosas que necessitam da manutenção desses sistemas. Tal como o exemplo anterior de se utilizar “Inteligências Artificiais” para de algum modo colaborar para a “mitigação” da crise climática agravada pelos sistemas de relações que engendram as próprias “IAs”.
A poluição também é intrínseca a esses sistemas, que só operam se houver descarte, com exaustores, escapamentos, dutos de escoamento etc emitindo aquilo que não têm capacidade de processar e acondicionar, gerando e emitindo aquilo que tem sido chamado de “entropia” em suas muitas vertentes – sendo a informacional, comentada no Capítulo 14, apenas uma delas.
A poluição faz parte da circulação global quantificada em matéria, energia, informação, símbolo, capital etc. Uma forma de poluição é gerada para que seja possível gerar a outra. Da queima de combustíveis fósseis, da construção de barragens, da fissão nuclear etc é gerada a eletricidade que polui o espectro eletromagnético e é usada para produzir informação poluidora da datasfera.
A emissão de informação então não se restringe ao sentido dado pelo diagrama shannoniano clássico de informação184 – na qual ela seria aquilo que compõe mensagens trafegando de um emissor para um receptor através de um meio que contém a interferência do “ruído” –, mas também à emissão de lixo e à emissão involuntária de informações, no caso de dispositivos de vigilância baseados na coleta de “exaustores” informacionais.
A poluição é tendencial em sistemas de “informação” operando nesse tipo de regime. A Informação virou lixo, mais um tipo de poluição. Ela é também integrante do ruído. A “nuvem de informação” está mais para uma “pluma de poluição”. Há até uma poluição conceitual no próprio conceito de informação, com tantas definições e entendimentos.
O conceito de “datasfera” também não dá conta da perda de indivíduos e espécies na atual grande extinção em massa, que vai muito além de uma redução informacional. Ou da amnésia e mal-estares advindos dos excessos hiperluminista.
Essa informação lixosférica – ou líxito, produto do colonialismo informacional185 – não é sempre apagada, muito pelo contrário: sempre que possível, ela é armazenada por data brokers ávidos pela extração de algum valor de todo esse lixo. É passível de armazenamento hoje mesmo que não se saiba o que fazer com ela, já que os custos de armazenamento são decrescentes, representando assim um investimento futuro quando novos métodos e capacidades computacionais estiverem disponíveis para analisá-la.
Haveria um limite para a expansão da “datasfera” e deste processo colonizador? Consideremos primeiramente os atuais limites físicos186:
Ainda que pareça contraintuitivo, dados, códigos e programas virtuais são entes sujeitos às leis da física e, sobretudo, aos interesses sociais e aos projetos de poder que lhes dão fundamento e existência. Como tudo o que existe, se movimentam no tempo e no espaço ou são armazenados a certa velocidade e intensidade, fisicamente definidas pela infraestrutura existente mediante determinado contexto social. Toda via de transmissão – rodovia, rede de esgoto, fibra óptica etc. – tem um limite posto por suas características físicas e disposição geográfica, e elas próprias são ou não construídas em alguns lugares a partir de decisões políticas e econômicas socialmente determinadas.
[…]
[…] a existência do universo digital somente é possível a partir da interação de pessoas em determinados meios físicos de comunicação codificada […] [que] demandam certa quantidade, velocidade e interação de massa e energia no tempo e no espaço para que sejam possíveis.
Pela chamada “Lei” (agourítmica) de Moore, a capacidade de processamento computacional dobra a cada dois anos, permitindo que a quantidade de dados computados também aumente. Já reparamos que a capacidade de armazenamento também aumenta tendencialmente, ainda que não seja tão rápida. A energia consumida não diminui, muito pelo contrário. Muito menos a quantidade de software.
O limite teórico para o colonialismo informacional não é somente a “digitalização de tudo”, como também a conversão dos corpos subjugados em armazéns de dados a serem extraídos.
Vopson (2020) calcula uma “catástrofe informacional” se as atuais tendências de crescimento datasféricas forem mantidas sem que ocorra algum processo de saturação: em cerca 350 a mil anos, o número de bits produzidos excederia a quantidade de átomos na Terra, e a quantidade de energia requerida para sustentar toda essa informação excederia o total atualmente produzido187.
O absurdo deste prognóstico já indica alguma mudança de cenário, seja pela explosão, implosão, saturação, extinção ou redução. O Explodismo parece ter chegado muito rápido, e com suas as taxas de consumo de recursos é capaz que não dure por tanto tempo antes que outro regime pós-explosão e talvez neo-feudal se estabeleça188.
Catástrofe, nesse sentido, talvez seja somente a aniquilação do paradigma, e não o fim de tudo189.
No momento, o que constatamos é que a quantidade de informação já cresceu para muito além da experiência humana.
Há uma evidente superprodução de dados: mais informação é “produzida” do que a humanidade precisa. Este crescimento é muito mais um imperativo do mercado do que uma necessidade humana de fato, mas é vendido como uma melhoria geral da qualidade de vida e uma forma de inclusão social, ao passo que parece produzir mais endividamento, mais desgaste ambiental, mais desigualdade social, mais racialização, reforço de desigualdades de gênero, mais precarização do trabalho, maior vigilância social, e mais lucros para as grandes corporações.
Como qualquer processo capitalista, a engrenagem marcha até o ponto de destruição, até a hiperprodução que não encontra mais possibilidade de consumo, até a guerra, que é a atividade de queima direta da produção.
References
Muitos núcleos e partes da borda da datasfera também são designados como “nuvens” (clouds), ou mesmo “A Nuvem” (The Cloud), em referência à grande quantidade de computadores que comporiam um imenso parque computacional onde dados são armazenados e computados. “Nuvem”, neste caso, é um termo que mascara a fisicalidade desses grandes silos informacionais e aliena a existência de computadores como elementos fundamentais do processamento de dados. Os termos “nuvem computacional” (cloud computing), “nuvem de dados” (data cloud), “armazenamento em nuvem” (cloud storage) etc fazem parte de um jargão mercadológico para tornar atrativa a “hospedagem” de informação em data centers corporativos, como se ela fosse um local miraculoso de baixo custo onde os dados estão sempre disponíveis. Chega a ser irônico que um termo da meteorologia seja usado por uma indústria que colabora ativamente com o agravamento da crise climática.↩︎
McLuhan e Lapham (1994). Não é que só o meio é a mensagem. O meio também tem sua mensagem, e esta tem ganho mais preponderância, mas essa máxima mcluhiana não parece universal.↩︎
O conceito de energia é outro que também precisa passar por uma desconstrução, o que talvez faremos em momento oportuno.↩︎
Um Wh (Watt-hora) mede a energia gasta por uma máquina de \(1W\) operando por uma hora. Se operar durante um ano consecutivo, esta máquina gastará \(24 \times 365 Wh = 8760 Wh\)/ano, isto é, \(8,760 kWh\) (kilowatt-hora) ao ano. As grandezas de kilo, mega, tera etc seguem uma lógica semelhante de Unidade e Abreviação da Tabela 15.1, mas para Watts ao invés de bytes. A relação entre Watts consumidos e bytes processados não é linear, e depende da eficiência energética dos equipamentos.↩︎
Confunde-se uma espécie de plasticidade maquínica com “aprendizado de máquina”.↩︎
Apesar deste estudo já não ser tão recente em relação à velocidade das mudanças dos padrões de consumo, uma comparação com o “Electicity Mix” de Ritchie e Rosado (2020) indica que o total de energia elétrica fornecida em 2022 (28.668,98 TWh) está próximo do valor estimado por Andrae e Edler (2015) em seu material suplementar (26.987 TWh).↩︎
A coleta de lixo informacional eletromagnético para fins de vigilância e obtenção de “inteligência” (no sentido dos Serviços Secretos) é chamada de Signals Intelligence (SIGINT - Inteligência de Sinais).↩︎
CNS - Central Nervous System (SNC - Sistema Nervoso Central.↩︎
ADHD - Attention-deficit/hyperactivity disorder (TDAH - Transtorno do déficit de atenção e hiperatividade).↩︎
Separei algumas referências estarrecedoras compiladas pelo astrônomo e ambientalista espacial Andy Lawrence – Lawrence (s.d): “Impact of Satellite Constelations on Optical Astronomy and Recommendations Toward Mitigations”, por SATCON1 (2020); “Report of the SATCON2 Workshop, 12–16 July 2021”, por SATCON2 (2021); “Dark and Quiet Skies for Science and Society - Report and recommendations”, por United Nations Office for Outer Space Affairs (2021); “The Impacts of Large Constellations of Satellites”, de JASON Advisory Board (2021); “Large Constellations of Satellites: Mitigating Environmental and Other Effects”, de United States Government Accountability Office (2022a); “Satellite Licensing: FCC Should Reexamine Its Environmental Review Process for Large Constellations of Satellites”, United States Government Accountability Office (2022b); “The case for space environmentalism”, de Lawrence et al. (2022); “Satellite mega-constellations create risks in Low Earth Orbit, the atmosphere and on Earth”, por Boley e Byers (2021); “Astronomy, Doughnuts, and Carrying Capacity”, Lawrence (2023); “Potential Perturbation of the Ionosphere by Megaconstellations and Corresponding Artificial Re-entry Plasma Dust”, Solter-Hunt (2023); “Who Owns Outer Space? International Law, Astrophysics, and the Sustainable Development of Space”, por Byers e Boley (2023).↩︎
United Nations Office for Outer Space Affairs (2024a); United Nations Office for Outer Space Affairs (2024b).↩︎
Euroconsult (2022) pág. 9. Checar também Euroconsult (2021).↩︎
Kessler e Cour-Palais (1978); Kessler (2009); David (2021); Kelvey (2024).↩︎
Sobre a redução da visibilidade do céu noturno, checar por exemplo or artigos “Stars could be invisible within 20 years as light pollution brightens night skies”, de McKie (2023), e “Citizen scientists report global rapid reductions in the visibility of stars from 2011 to 2022”, de Kyba et al. (2023).↩︎
Segundo o relatório do United Nations Office for Outer Space Affairs (2021) (págs. 16; 46; 48), até meados Maio de 2020 existiam ao menos 223 óasis de de céu escuro na Terra, totalizando uma área de 20 milhões de hectares, o que pode parece muito mas que corresponde somente à 0,14% da área terrestre que não está coberta por oceanos. Consulte Falchi et al. (2016) para um atlas da iluminação noturna, que indica mais de 80% da população mundial e mais de 99% das populações européias e estado-unidenses vivendo sob um céu com poluição lumínica.↩︎
Isso ocorre dentro da chamada Tragédia do Comum – Hardin (2009) –, na qual agentes que usufruem de um recurso escasso de forma não-reguada não possuem incentivo de curto prazo para conservar a fonte comum, é mais um fenômeno algorítmico de redução da realidade: agentes que competem entre si, mas que usam um recurso comum, maximizam seus retornos se não investirem na conservação da fonte de recurso. Aquele que investir na conservação estará dispendendo recursos econômicos e portanto terá um retorno menor do que os outros. Assim, na ausência de alguma forma de regulação, a tendência é que todos os agentes retirem recursos sem que a fonte possa se recuperar. Algo semelhante ocorre com a poluição: não havendo incentivo ou regulação, agentes não se preocupam em evitá-la ou despoluir a fonte. A saída deste agourítmo é a regulação, porém existem (auto-)regulações de vários tipos: algumas autoritárias, outras participativas; de caráter moral, ou ético; etc. Existem até entendimentos que excluem a separação entre “agentes” e “recursos”, e que tendem a ser mais colaborativas, reconhecendo por exemplo que somos feitos de terra, e também a fazemos…↩︎
No âmbito da “datasfera”, este colonialismo se manifesta em seus aspectos digitais e estadísticos descritos em Faustino e Lippold (2023) págs. 25-27: “colonialismo digital […] não é metáfora, figura de linguagem ou mero discurso pautado por uma suposta dominação imaterial […] É, pois, expressão objetiva (e subjetiva) da “apropriação privada de tempos de trabalho de seres humanos afastados dos meios de produção e obrigados, assim, a sobreviverem mediante a alienação da sua força de trabalho”. […] Sua existência se materializa a partir de duas tendências. A primeira é a emergência de uma nova partilha territorial do globo terrestre entre os grandes monopólios da indústria da informação […] – partilha essa que atualiza o imperialismo, o subimperialismo e o neocolonialismo tardio ao reduzir o chamado Sul global a mero território de mineração extrativista de dados informacionais. A segunda tendência, também nomeada colonialismo de dados, é aquela que subsume cada vez mais a vida humana […] às lógicas extrativistas, automatizadas e panópticas do colonialismo digital. Não se trata, aqui, de uma simples alteração dos ritmos de vida ou mesmo da percepção humana sobre a introdução de novas tecnologias, como poderia se presumir, mas, sim, da manipulação intencional da cognição humana por grandes corporações empresariais a partir dessas tecnologias, com vistas à ampliação da acumulação de capitais”.↩︎
Talvez fosse o caso considerar uma medida para informação que é descartável, que é lixo, que está à espera de alguém ou algo para processá-la, e chamar esta unidade não de “bit”, mas de “shit”, ou líxito binário, indicando a quantidade de lixo contida num repositório. O “shit” indica a altura da pilha (“stack”) de lixo informacional excedente, produzida, reproduzida e necessária para o colonialismo mas e desnecessária para o bem viver.↩︎
Ideologias como a seita da Singularidade Tecnológica parecem aspirar a catástrofe informacional como uma espécie de transcendência autoritária que não consulta os seres extintos no processo.↩︎
Já há quem aponte para o fim do ciclo capitalista, como Wark (2016) e Varoufakis (2023). Para um resumo esquemático de cenários, checar Frase (2016).↩︎
De Baudrillard (1994) pág. 83: “one must realize that ”catastrophe” has this ”catastrophic” meaning of end and annihilation only in relation to a linear vision of accumulation, of productive finality, imposed on us by the system. Etymologically, the term itself only signifies the curvature, the winding down to the bottom of a cycle that leads to what one could call the ”horizon of the event,” to an impassable horizon of meaning: beyond that nothing takes place that has meaning for us – but it suffices to get out of this ultimatum of meaning in order for the catastrophe itself to no longer seem like a final and nihilistic day of reckoning, such as it functions in our contemporary imaginary”.↩︎